Li & Recomendo: Hibisco Roxo

Olá pessoal, olha só quem está de volta após quase um ano sem dar as caras kkkkkk...
Antes de mais nada gostaria de me desculpar por negligenciar o Conforme à Letra ao extremo, mas uma série e fatores me impediram de ao longo do ano atualizar o blog, sendo o desanimo em escrever um fator chave para todo esse tempo no escuro.
Digo de antemão que pretendo tornar esse ano gradativo em postagens e tentarei ao máximo não me deixar desanimar...
Bem, sem delongas, a primeira postagem do blog será, como não poderia deixar de ser, a resenha de um livro lido por mim faz meses, mas cuja resenha ficou engavetada uma vez que tratava-se de um trabalho da faculdade (pois é, quem não disse que não podemos aproveitar certas coisas).
Enfim, espero que gostem da resenha e se sintam impelidos a ler o livro futuramente.


Como uma flor rara

O desabrochar da adolescência desde sempre é muito complicado para os que vivem essa fase, pois os conflitos internos somam-se as mais nebulosas incertezas no que diz respeito ao futuro; assim sendo, toda a instabilidade característica deste período pode ganhar contornos bem mais sinuosos do que possamos imaginar, ainda mais quando influências externas podem desestabilizar o convívio em família, causando medo, ressentimento e, principalmente, rupturas no indivíduo que muitas vezes são irreversíveis.
Nesse sentido de ruptura causada por fatores externos é que gira a trama contada em Hibisco Roxo (Chimamanda Ngozi Adichie, Companhia das Letras, 324 páginas) onde a protagonista e narradora da história, uma adolescente de apenas quinze anos chamada Kambili, de modo inocente por vezes mostra ao leitor como as influências da colonização branca na Nigéria são perceptíveis não só na economia e na sociedade, mas também no próprio âmbito familiar uma vez que sua família se vê envolta numa verdadeira tirania religiosa representada por Eugene, seu pai, um homem que oscila entre extremismo religioso, superproteção e espírito de solidariedade, que, inevitavelmente sufoca o convívio familiar de Kambili com a mãe_ uma mulher submissa e de voz quase sempre inaudível, o que mostra sua incapacidade de se impor como esposa e mulher diante dos excessos do marido_ e de seu irmão e também adolescente Jaja_ idolatrado pelo pai, mas que ao longo da trama é o único que cria coragem suficiente para desafiar Eugene, ainda que tal ato irremediavelmente lhe custe caro.
Somada a família da Kambile ainda há a família de sua tia, Ifeoma uma professora universitária viúva, mãe de três filhos, sendo dois adolescentes_ a jovem Amaka e seu irmão Obiora, ambos de espírito rebelde_ e o ainda pequeno Chima. Há ainda a presença do avô de Kamili, Papa-Nnukwu, ligado às antigas tradições pagãs da etnia Igbo e que devido sua postura tradicionalista é repudiado por Eugene, seu próprio filho.
Em meio ao impasse religioso existente na família de Kambili,a jovem floresce para adolescência e para o amor após, juntamente com seu irmão, passar algumas semanas na casa de sua tia Ifeoma em Nsukka. É justamente num ambiente familiar diferente do seu, tido como claustrofóbico e engessado, que a adolescente_ além de ver de perto a realidade do povo Nigeriano assolado pela discrepância social em que a maior parte da população vive na miséria ou passando por provações extremas,desde a falta de luz e gás até a escassez de alimento_ conhece o padre Amadi com quem havia tido um contato muito breve numa missa algum tempo atrás. Assim, nesse despertar para o amor e, porque não para a própria vida além dos altos muros de sua casa de luxo na Nigéria, Kambili pode ser vista como os próprios hibiscos roxos que vislumbra em sua estadia na casa de Ifeoma e posteriormente no jardim de sua casa, afinal a adolescente é tão singular quanto os raros hibiscos de pétalas arroxeadas que também podem ser tidos como elemento metafórico dentro da narrativa uma vez que a rara flor pode ser encarada como a representação da Nigéria pós-colonial já que a planta é fruto da manipulação genética feita pelo homem (neste caso por uma amiga geneticista da tia de Kambili), ressaltando que seu desabrochar na casa da adolescente caracteriza a mudança na identidade da jovem e de seu irmão, tocados pela representação imperialista na figura do pai e nas raízes do povo igbo representados por sua tia e seu avô.
Desse modo, o poder da história criada por Chimamanda não só serve para entreter o leitor, mas para levá-lo a reflexão mostrando-lhe os traços dicotômicos na sociedade nigeriana uma vez que a crítica social embutida em Hibisco Roxo traz à tona a fragilidade existente nos aspectos políticos (decorrentes da colonização branca e sua perceptível influência na política local), religiosos (onde o poderio da Igreja Católica significa alto status social_ basta perceber como o próprio pai de Kambili beneficiou-se da educação católica britânica recebida para aculturar-se e consequentemente enriquecer e tão logo ser visto pelos demais como santo homem, muito embora os traços de sua religiosidade o caracterize como intolerante e até violento para com sua própria família) e sociais (onde a pobreza cria um clima de instabilidade em todo país levando a uma crescente onda de protestos) da Nigéria que  muito se assemelha aos contrastes encontrados em outras culturas ao redor do mundo.

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