Li & Recomendo: A fé na era do ceticismo


Olá pessoal, como estão? Espero que bem. Pois é, após mais um período sem postar nada, eis que estou de volta com resenha fresquinha para vocês. Desta vez, o livro resenhado segue uma linha um pouco diferente dos livros que costumo comentar por aqui, até mesmo porque é um livro mais teórico e voltado para os assuntos do cristianismo.
Enfim, espero que apreciem a resenha a seguir e, quem sabe, uma chance possa ser dada ao livro em questão, pois certamente é uma leitura válida tanto para cristãos como para os não cristãos.


Necessário em tempos de ceticismo

A humanidade desde que se estabeleceu no planeta sempre esteve em luta constante, seja para assegurar sua sobrevivência num mundo em que a natureza parecia ao homem implacável, seja quando os próprios homens guerreavam entre si para garantir as melhores porções de terra para caça, pesca, plantio e afins. Deste modo, a trajetória do ser humano sempre levou em conta a luta por sobrevivência, mas também um outro tipo de luta, uma mais íntima e ligada aos aspectos sobrenaturais, basta lermos um pouco mais sobre a pré-história do homem para sabermos como o misticismo sempre esteve enraizado no DNA humano, tornando inerentes a nós os assuntos da fé, quer você acredite ou não.
Partindo do pressuposto acima, da fé e a relação que temos com ela, o reverendo Timothy Keller esmiúça seus aspectos no bem-sucedido livro  "A fé na era do ceticismo" (Eduitora Vida Nova: 2015, 288p.), que não é apenas um livro cristão escrito para cristão, mas, antes de tudo, uma tese a respeito do conceito de fé e ceticismo que desafia tanto o cristão convicto, como aquele cristão cheio de dúvidas e, ainda, aquele indivíduo totalmente cético.
O livro estrutura-se em duas partes muito bem desenvolvidos e organizados em níveis de aprofundamento do conceito que a maior parte de nós temos sobre fé e ceticismo, sejamos cristãos ou não. Deste modo, o autor, usando uma linguagem acessível, faz algo audacioso: defende os pontos de vista dos que creem, mas também dos que não creem, explicando cada assunto relacionado a fé e ao ceticismo com exemplos práticos, baseando-se em fontes literárias, antropológicas e filosóficas.

"Chegamos a um momento cultural em que tanto os céticos quanto os crentes sentem que a sua existência se encontra ameaçada, porque tanto o ceticismo secular como a fé religiosa estão passando por um crescimento importante e poderoso. Hoje não vemos nem o cristianismo ocidental do passado nem a sociedade secular sem religião que havia sido prevista para o futuro. Vemos algo totalmente diverso." (p. 19)

Dentre tantos assuntos abordados ao longo do livro, um ponto para o qual o autor chama a atenção em relação a religiosidade e ao secularismo, bem como a construção da fé nestas duas vertentes, é a divisão cultural que há atualmente e em como ela tem polarizado o mundo, dividindo-o em: "cristãos que querem impor sua fé sobre os que não creem" e o "relativismo permissivo dos descrentes".
Neste ponto, Timothy Keller faz uma proposta tanto para os crentes como para os não crentes já que convida os dois grupos a fazerem um "exame de dúvida", ou seja, buscar os motivos de suas próprias convicções se despindo de conhecimentos engessados geralmente adquiridos por herança, mostrando como cada dúvida que venha surgir por parte dos dois lados são, em certa medida, "crenças alternativas" que funcionam como um "salto de fé" já que não podemos comprovar empiricamente que o que acreditamos é de fato uma verdade absoluta.
No mais,  o livro vai abordando questões que norteiam tanto os crentes como os não crentes no que diz respeito à religião partindo de três pontos: ilegalidade da religião, condenação da religião e subjetividade da religião. No primeiro ponto, o autor discorre sobre como tentou-se suprimir a religião, porém quanto mais oprimida, mais ela se fortalece pelo fato de que não é algo passageiro e sim parte da condição humana. No segundo ponto Keller fala sobre o fato do uso exclusivista que fazemos da religião colocando-a como certa em relação as demais, o que mostra uma postura ignorante tanto quanto alegar que todas as religiões são iguais. Por fim, no terceiro ponto, o autor mostra como a religião torna-se desagregada quando pensada de modo privativo, ou seja, quando mantida fora da esfera pública, algo que por mais que se queira é impossível uma vez que "declarações que aparentam pertencer à esfera do senso comum para quem as fez, têm, quase sempre, uma profunda natureza religiosa." (p. 43)
Outras questões aprofundadas ao longo da leitura do livro são as que tratam dos aspectos divinos e o modo como Deus é visto por muitos como um ser contraditório por permitir que coisas ruins aconteçam; há ainda o questionamento levantado sobre as injustiças cometidas pela igreja institucionalizada; condenação ao inferno; relação da ciência com o cristianismo e interpretação bíblica. Já na segunda parte do livro, o autor trata especificamente dos fundamentos da fé ao discorrer sobre as pistas que levam a existência de Deus, conhecimento do divino; questões relativas ao pecado; religião e evangelho; Jesus como símbolo máximo do cristianismo; conceito de ressurreição e, por fim, conceitos sobre Deus.
Para finalizar,  é válido mencionar que não existe a pretensão, por parte de Timothy Keller, de evangelizar os evangelizados, aqueles que creem em outras crenças ou, ainda, os que dizem não crer em nada, pelo contrário, em "A fé na era do ceticismo" todos somos instigados a repensar nossas próprias convicções por meio da autoanálise, algo tão necessário em tempos tão obscuros em que vivemos, onde o ceticismo exagerado tem nos levado, em certa medida, a falta de perspectiva e ao imediatismo que por mais que possa simplificar muitos aspectos da vida também contribui com a falta de reflexões mais profundas que venham a ser necessárias para um vislumbre mais otimista do nosso futuro. Leitura recomendada!

"Aos crentes verdadeiros, ele [o livro] oferece uma plataforma sólida em quem podem se apoiar contra os ataques à religião próprios da era do ceticismo. Aos céticos, ateístas e agnósticos, ele fornece um argumento desafiador para se lançarem em busca das razões da existência e Deus."

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