Contos Sombrios I - A Chance



O destino pode ser, muitas vezes, ardiloso e cruel principalmente quando coisas inesperadas ocorrem em situações tão corriqueiras quanto uma simples viagem.


 

_ Tem certeza que precisa sair hoje, Susana?
_ Sim, não posso arriscar sair mais tarde, afinal é uma longa viagem_ Susana respondeu sem olhar para Alex.
_Poxa, você já reparou na chuva que está desabando aí fora, não acho que seja uma boa ideia sair com esse temporal_ disse Alex após um raio ter atravessado a janela do quarto do casal.
_ Infelizmente, não posso esperar a chuva passar, querido_ indagou Susana ao fechar com grande esforço o zíper da mala vermelha que segurava.
_Bom, então prometa que vai tomar cuidado e que vai dirigir com calma, tudo bem?_ Advertiu o marido preocupadamente enquanto pegava a mala das mãos da esposa e se dirigia para a porta de entrada da casa.
_Ai Alex, é claro que vou ser prudente, não precisa se preocupar, além do mais não acho que essa chuva vá durar tanto tempo!
Se ela tivesse parado para observar as feições do marido, teria reparado o quanto ele parecia preocupado, mas estava tão pensativa quanto o que iria ocorrer no dia seguinte e em como seria importante para ela que nem pode perceber o que se passava ao seu redor.
Conduzida por Alex até o carro, olhou para a estrada e reparou o quanto chovia naquela ocasião, por um momento um arrepio percorreu seu corpo, mas imaginou que era por causa da baixa temperatura que fazia.

Assim que sua mala foi posta no porta – malas, Susana andou até o lado do motorista seguida pelo marido e seu enorme guarda-chuva preto.
Assim que pararam, ela o olhou nos olhos de Alex e sentiu uma sensação esquisita.
_ Vou sentir sua falta, meu bem _ disse por fim enquanto sua mão gelada acariciava-lhe a face.
_Eu também Susana... Nossa como sua mão está gelada_ Alex comentou após certa pausa.
_Deve ser porque está frio, não é amor?_ riu de sua própria conclusão.
_Querida, você precisa ir mesmo? Você vai a tantos lugares divulgar sua pesquisa que nada vai acontecer se você não for desta vez_ insistiu ele enquanto beijava os lábios da esposa.
_Engano seu, meu bem, esse congresso é importante e fundamental para a divulgação de minha pesquisa, portanto, tenho que ir_ finalizou a conversa com um longo beijo nos lábios de Alex, mas assim que se afastou do marido sentiu uma tristeza e pensou ser saudades antes mesmo de partir.
Susana entrou no carro e abaixou o vidro até a metade para se despedir do marido que a olhava estranhamente naquela noite.
Nem bem tinha girado a chave na ingnição quando percebeu que Alex estava olhando-a de soslaio e antes mesmo que pudesse abrir a boca para tentar tranquilizá-lo ele lhe disse:
_Tome muito cuidado e vá com Deus, meu amor!
_Ah querido, não sei se Deus vai querer estar comigo nessa chuva, é melhor ele ficar contigo que vai se mais confortável para ele_ respondeu enquanto o carro se distanciava lentamente. Pelo retrovisor avistou a silhueta de Alex que permaneceu imóvel até que não pudesse mais ser visto por ela.

Cerca de uma hora se passou desde que ganhou a estrada, ao contrário do que poderia imaginar a chuva só aumentou, de modo que teve que ter muita cautela, pois a visibilidade em alguns trechos não era confiável.
Chegou até a cogitar a ideia de parar em algum lugar para ver se a chuva daria trégua, foi então que pensou em Alex e no que ele deveria estar fazendo naquele instante, provavelmente devia estar dormindo, já que era mais de onze horas.
Foi cautelosamente dirigindo que o tempo foi passando e Susana, com todos os sentidos ligados, ia conduzindo o carro pela estrada até que ao passar por um posto de gasolina teve a impressão de ter visto alguém no acostamento e assim que fez menção de parar viu que não era nada então seguiu seu caminho, no entanto, tinha quase a certeza de ter visto uma pessoa.
_Que bobagem, até parece que alguém ia ficar parado no acostamento com essa chuva_ disse baixinho enquanto se aproximava de uma curva.
De repente se sentiu incomodada com o silêncio no interior do automóvel e ligou o rádio a procura de uma estação que tivesse sinal por ali. Quando estava quase desistindo, porque parecia não haver nenhuma funcionando, ouviu uma voz surgir em meio aos ruídos do rádio, desse modo, aumentou o volume e percebeu que a única estação que funcionava era de uma rádio evangélica.
_E essa agora, não gosto desse tipo de programa_ comentou consigo mesma, mas como não havia alternativas começou a prestar atenção na voz do locutor:
“... Caros irmãos, estamos aqui nesta noite de sexta-feira para levar a palavra de Deus a todos os ouvintes...”
Entre um chiado e outro a voz do locutor podia ser ouvida ao longe o que irritou Susana que antes de desligar o rádio ainda ouviu suas últimas palavras ecoarem mais como um chiado abafado por causa da péssima recepção da rádio naquele trecho da estrad:
“... Deus nos chamou para uma missão maior, não para uma recompensa mais atrativa...”
Antes mesmo que pudesse refletir sobre esses últimos dizeres da voz no rádio, algo terrível sucedeu, uma claridade cegou Susana por uns instantes, ela desviou o carro instintivamente e sentiu a morte se aproximar e, ao contrário do que as pessoas dizem, sua vida não passou como um filme em sua mente, pois ela sentiu um baque muito forte e reparou que seu carro rodava no ar tão violentamente que se chocaria em alguma coisa.
Enquanto o automóvel rodopiava no ar, Susana olhou pela lateral do carro e viu alguém observando-a de longe, concluiu que era a mesma pessoa que ela pensou ter visto algumas horas antes, entrou em pânico e depois um torpor a foi lavando para inconsciência gradativamente assim que o carro rolou por um barranco indo chocar-se com uma enorme árvore.
Depois do acidente, as coisas que se sucederam foram muito estranhas para Susana; ela acordou e reparou que estava fora do carro totalmente amassado numa árvore, entrou em choque ao ver a cena, mas se sentiu aliviada por ver que não estava com um arranhão se quer. Instintivamente, caminhou em direção ao automóvel, mas parou quando estava a alguns metros de distância, pois um tipo de força a impedia de se aproximar, então, decidiu subir o barranco e buscar ajuda. Quando já estava no acostamento da rodovia, começou a gritar para ver se algum motorista paparia para socorrê-la, no entanto, era como se ninguém pudesse vê-la.
Um ligeiro pânico começou a tomar conta da mulher novamente, foi então que, um automóvel antigo e de cor branca parou e de seu interior um homem muito simpático veio socorrê-la. Agradecida, Susana contou tudo o que ocorrerá ao homem de feições serenas e este ouvindo atentamente, sugeriu que ela voltasse para casa e avisasse o marido. A mulher não pensou tanto a respeito e como estava assustada e com saudades de Alex, seguiu os conselhos do motorista e pegou uma carona até sua casa, naquele momento, ela reparou que o caminho estava totalmente nebuloso, não estava mais chovendo o que a deixou, de certa forma, aliviada.
Susana conversou muito com o motorista, mas acabou se esquecendo de perguntar seu nome, quando estava prestes a fazê-lo, o carro parou em frente a sua casa sem que ela pudesse ter dito que era ali que morava.
_Chegamos, disse o simpático homem.
_Nossa, conversamos tanto que nem reparei que já havíamos chegado, respondeu-lhe Susana mais calma.
_Não faça seu marido esperar, ele esta muito preocupado!
Susana saiu do carro rapidamente e antes que pudesse agradecer o homem, este já havia tomado seu rumo.
A mulher entrou apressadamente em casa e foi diretamente para o quarto falar com o marido que dormindo se virava de um lado para o outro da cama de casal.
_Alex, chamou Susana apreensiva, Alex...
Naquele momento o mundo pareceu girar para a pobre mulher, ela sentiu uma dor muito grande tomar conta de cada parte de seu corpo, não conseguia falar com o marido, então, algo estranho aconteceu, ela sentiu que estava sendo puxada abruptamente para um lugar conhecido, era o local do acidente, no entanto, ela agora estava no interior do carro quando ouviu uma voz desconhecida:
_Ela esta voltando... Ela esta voltando... Vamos, tragam a maca!
Em poucos instantes, Susana sentiu que muitas pessoas a seguravam e a imobilizavam numa maca, nesse meio tempo a mesma voz desconhecida lhe perguntava:
_Então, você pode ver a luz, você consegue ver a luz, moça?_ perguntava a voz enquanto apontava para Susana uma lanterna pequena.
A pobre mulher sentia muita dor, mesmo assim conseguiu responder a voz que ia ficando nítida assim como as pessoas ao seu redor, porém ela sentiu uma picada no braço e imediatamente seus olhos foram se fechando até que ficou totalmente inconsciente.


_Graças a Deus você acordou meu amor, graças a Deus, falou Alex enquanto delicadamente pegava nas mãos da esposa.
_Eu sofri um acidente Alex... Eu peguei carona com um senhor... A nossa casa... Você...
_Por favor, não fale, você não pode se cansar!
Susana não conseguia organizar as ideias e acabou seguindo as recomendações do marido que muito contente por ver a esposa viva, começou a falar:
_Ah meu amor, eu disse que você não deveria ir, eu sabia que algo terrível ia acontecer, eu juro que sabia. Tive uma noite péssima depois que você saiu, não conseguia dormir e tive um monte de pesadelos. Mas o mais incrível é que eu acordei de madrugada quando ouvi sua voz, foi tão estranho... Achei que você estivesse por perto, mas quando vi que você não estava entrei em desespero, foi então que o telefone tocou e a terrível notícia... Tive tanto medo, mas eu pedi a Deus sabe, pedi para ele te proteger Susana.
A pobre mulher ouviu atentamente as palavras do marido e então ela começou a ligar os fatos: o acidente, a carona do homem, o modo como ela chegou rápido em casa sem ao menos ter dito ao motorista onde morava, o momento em que viu Alex se mexendo na cama e a sensação de estar sendo puxada de volta ao local do acidente. Ela nunca havia saído do carro, nunca havia pegado uma carona e, muito menos chegou em casa e chamou Alex, pelo menos não totalmente.
Susana se emocionou profundamente quando entendeu a grandiosidade do que lhe havia ocorrido, uma lágrima escapou de seus olhos e seu marido pensou que ela estava sentido algum tipo de dor. Quando fez menção de se levantar e chamar a enfermeira, Susana segurou sua mão e disse que estava tudo bem, pois ela somente estava se lembrando de algo muito importante.

Susana permaneceu muito tempo internada até que teve alta e com o passar dos dias se recuperou impressionantemente. Ela nunca contou a Alex o que lhe ocorreu de fato, mas a partir daquele instante mudou de postura porque percebeu que havia se afastado de si mesma e de sua espiritualidade em favor de bens materiais e do sucesso, percebeu que a vida havia dado-lhe uma oportunidade e concluiu que essa segunda chance lhe foi dada por uma força superior que rege as pessoas e o universo, concluiu, também, que essa mesma força não queria que ela desperdiçasse seu tempo, pois o que lhe ocorreu fora justamente para que percebesse que o valor máximo da vida é vivê-la com comunhão e, principalmente, com fé.
Por Lucy Soturna

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